07 outubro 2026

O Senhor dos Anéis

Lembro quando adquiri os três livros, da editora Martins Fontes, em promoção em uma dessas grandes lojas. Era setembro de 2009. Mas como minha cabeça, à época, estava distante e caótica, não considerei o verdadeiro valor daquilo que adquiria, ainda mais, por pertencer ao “bolo” dos livros promocionais, em questão. 


O contato com os filmes foi, ao meu ver, em semelhante direção. Explico: era o primeiro ano de faculdade e o interesse recaía inteiramente no prazer da companhia. O que escolhessem estava bom. E o que escolheram foi ver A Sociedade do Anel.

A impressão que tive foi muito ruim. A história era legalzinha até ter terminado no meio da jornada (repito: o interesse em jogo era mais na companhia…). Não me decepcionou, porque não haviam expectativas em mim. Só não me interessou mais.

Preciso esclarecer uma coisa: pode parecer muito estranho o fato de não haver tais expectativas sobre a obra, porém ao recolher minhas memórias, compreendi que, como fui fisgado pelo RPG finalzinho da geração xerox/início das importações, as referências nunca estiveram presentes como algo a ser consumido, nem no horizonte. A dinâmica era jogar, até mais do que conhecer, neste período.

Devo admitir, no entanto, que um grande amigo meu foi a minha única (e talvez suficiente) referência, a qual, infelizmente, não populou a imaginação como deveria. Mas a imagem dele lendo a obra, em edição única, e sua conclusão de se tratar de uma grande história sobre amizade ficaram preservadas em algum recanto da memória.

Ao tempo dos filmes, minha relação com o RPG era agonizante. Como já foi mencionado, perdia para o apelo de outras áreas. Mas o ano de 2004 reservava uma providencial conversa com um primo que mudaria tudo - em meio a outros assuntos, ele me indagou se eu já tinha visto a trilogia. Quando revelei não ter gostado de Sociedade, ele insistiu para eu ver os outros dois porque eram muito melhores. E o entusiasmo com que contou e descreveu sua reação e de amigos fez com que eu fosse ver os filmes.

Vi e compreendi. Ter assistido As Duas Torres e O Retorno do Rei possibilitou dar uma outra chance à Sociedade. A minha concepção foi totalmente revolucionada, a partir desse ponto. O que compreendi, portanto, tinha mais a ver com a totalidade da obra do que apenas entretenimento. Não eram apenas cenas bem filmadas, com efeitos que impactam até hoje, mas grandes atores que estavam imortalizando imagens e palavras, sob uma trilha sonora digna dos maiores, dirigidos por um sujeito que desejava alcançar a essência da obra, sua representação mais fidedigna. A qualidade final do filme fez ressaltar e engrandecer o gênio criativo por trás. Quem era, então, seu autor?!

O filme havia me conectado com seu autor. Ainda lembro ter feito, na empolgação, minha inscrição no fórum Valinor, em busca de outras pessoas com as mesmas impressões. Mas, ainda não era chegada a hora…

Entretanto, adquiri o hábito (ou ritual) de assistir a trilogia todo ano. E com a versão estendida, o apreço aumentou. A história começou a crescer em meu espírito e a se alimentar na admiração da construção dos personagens, inclusive em relação aos atores.

Com o YouTube, outras pessoas também começaram a se conectar e a trocar experiências, fossem nos comentários, fossem em depoimentos pessoais ou no desenvolvimento de teorias e perspectivas sobre a obra e seu autor.

Mas a vida vai imprimindo um ritmo próprio e seus acontecimentos se assemelham a esquecimento ou por vezes desprezo aos objetos amados. Os livros ficaram encostados por 9 anos, até que o primeiro volume foi aberto no segundo semestre de 2018.

É uma jornada diferente, com um tempo próprio de maturação. Tolkien possui domínio incomum sobre a linguagem e construção narrativa. É bastante descritivo, principalmente no que concerne ao cenário e absolutamente talentoso para dar profundidade ao personagem. Para se ter uma ideia, meus livros são sublinhados nos trechos que considero de grandeza ímpar. São muitas passagens inesquecíveis, cujos diálogos ou descrições conduzem o leitor à emoção.

Percebi como o filme foi adaptado, e bem, é bom que se diga. Mas a história é, naturalmente, mais repleta de detalhes interessantíssimos. O Expurgo do Condado, por ex., seria delicioso ver retratado no cinema, ou mesmo Tom Bombadil.

A obra escrita é semelhante a seu percurso: transcorrer suas centenas de páginas exigirá o preço da benevolente insistência para alcançar as tranquilas paragens do coração aquecido, ao final.

A última página foi fechada agora em outubro corrente. 8 anos de muitos acontecimentos dentro e fora do livro. E meu amigo tinha razão: é uma grande história de amizade.

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