Sim, devo confessar que se trata de outra dívida pendente. Mas, veja, este estilo literário merece alguma propiciedade para que estejamos no momento adequado para apreciá-lo. No meu caso, é um dos títulos de 2009, que precisou aguardar o momento oportuno.
Quando adquiri, o que me motivou foi a curiosidade de conhecer o autor. Não me era nem um pouco familiar, a não ser, pela temática, e de ter lido alguma coisa de Edgar Allan Poe, quando criança. Valeu? Não, não valeu. Existem coisas que, perdidas no tempo, não fincaram suas raízes propriamente no nosso imaginário.
Então, por isso também, estes dias atrás, resolvi ler H.P. Lovecraft. E quando o fiz, seja por obsessão neurótica ou por ordem lógica, comecei por seus influenciadores (alegados em algum texto remoto...), tais como Poe ou mesmo Lord Dunsany. Deste último, iniciei The Gods of Pegãna. Mas vejo que a tarefa requer um pouco mais de insistência benévola, já que o autor aparenta retomar a prática teogônica dos gregos, descrevendo a gênese do mundo que relata. É interessante? Sim, entretanto, a profusão de entidades e suas potências divinas demandam um nível de atenção permanente que não disponho atualmente.
Já Poe, na boa edição "Medo Clássico", que possui a característica de aproximar o leitor de seu relato pelo desenvolvimento de uma ansiedade onipresente, me pareceu imediatamente palatável, como por ex., no conto A Queda da Casa de Usher. Li completamente livre da necessidade de buscar o pretenso valor de seu autor e fui bastante surpreendido por uma genialidade genuína: a agradável sensação do inusitado.
De uma certa forma, este pedágio preparou o que viria a seguir, ao adentrar o mundo lovecraftiano. Na obra ao meu dispor, são sete contos: Dagon, Ar frio, O que a lua traz consigo, A música de Erich Zann, O modelo de Pickman, O assombro das trevas e O chamado de Cthulhu.
Cada um destes contos aponta para um universo a ser descortinado, em que o leitor é tragado para um sistema em que o personagem experimenta a suspeição da própria sanidade e a desesperada busca pela saída mais imediata. Se com Poe, se experimenta a vertigem pessoal, com Lovecraft a queda do abismo é irremediavelmente existencial.
Não há como não prosseguir neste caminho de descoberta do horror em Lovecraft, já que sua escrita não se mostra inacessível e seu conteúdo não se apresenta maçante. Ao contrário, a leitura se transforma à medida que o absurdo provoca na imaginação uma força de atração irresistível. É possível vislumbrar entre os contos, inclusive, uma progressão da realidade construída. Ou da sensação de realidade sendo distorcida, ao leitor.
Enfim, agora entendo como o autor está elencado nas referências propostas no renomado Apêndice N. É provável que muito do elemento horror psicológico presente ao longo do RPG derive desse percurso, considerando que a familiaridade com que Lovecraft descreve seus acontecimentos insólitos deixa uma espécie de desconfiança justa na mente do leitor: como Pickman, qual é a verdadeira dimensão da diferença entre o testemunho e a criação no autor?

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