24 agosto 2025

Rola o Dado: A Saga Épica de D&D que Revolucionou o RPG Online Brasileiro

Epicidade no streaming brasileiro


Tendo realizado o que qualquer outro criador de conteúdo gostaria, Rola o Dado, a mesa apresentada pelo canal AzeCos no YouTube, estabeleceu um marco para o RPG nacional. Ao longo dos 100 episódios, que usualmente giravam em torno de 3 partes de 50 a 60 minutos, durante aproximadamente 10 anos, acompanhamos a trajetória de 5 personagens em busca de redenção, glória e tesouros fantásticos.

Embora contrastasse no quesito "profissional da arte" com seu congênere estrangeiro, Critical Role, o grupo formado por jogadores amadores ajudou a construir uma cena virtual para o hobby neste país. Vale dizer também, que veio em data anterior ao seu "meio-irmão", estabelecendo, quem sabe, o ineditismo mundial.

A campanha se apoiou em estruturas de aventuras clássicas e a adição de elementos de narração própria, gerando, em consequência, o Azeverso, uma espécie de marca cômica interna da mesa. Alías, o tom de humor ocasional, seja na criação dos memes ou marcas distintivas, contribuiu para a leveza de arcar com o custo das aproximadamente 300 horas de duração do show.

Ao longo deste tempo, houve a mudança de jogadores, o que, na minha opinião, estabeleceu uma qualidade final maior em termos de roleplay e conhecimento de sistema, diminuição de tensão interpessoal e diversidade de estilo à mesa. Afinal, era evidente que a dinâmica Hagen/Baragor terminaria em prejuízo à história, assim como a participação de Arya acabava por depender do conhecimento (no caso, desconhecimento da jogadora), atrapalhando o desenvolvimento da trama. As participações especiais, entretanto, foram as precursoras de futuras adições e auxiliaram o equilíbrio dos encontros e progressão dos personagens titulares.

Alguns personagens NPC vão ficar na memória dos espectadores, tais como Pinker, Galdor ou Sirilia. A interpretação do mestre, no caso de Pinker, é sensacional! - do lado cômico, é claro. Sua atuação na trama é acessória, porém, em alguns momentos (raros), decisiva, até. Mas a interação com os personagens principais gera essa expectativa futura de revê-lo em ação mais vezes. Assim como com Galdor, o antagonista de Baragor. Sua atuação canalha faz com que sonhemos com a vingança do anão devoto de Moradin. Mas há muitas reviravoltas... E o que dizer da elfa Sirilia e suas aspirações? São grandiosas, tal qual seus efeitos e repercussão na história.

E há a exploração de Forgotten Realms. Considero isto um momento de aproximação entre jogadores antigos e novos, como um aceno às grandes possibilidades da comunidade de D&D. Se outrora o suporte narrativo foi Greyhawk (na gringa, é claro, e talvez para a geração Xerox), não restam dúvidas de que o passaporte da aventura se direciona aos Reinos Esquecidos. Rola o Dado conseguiu realizar nas interações, viagens, combates e aproveitamento da tradição a facilitação imaginária do apreciador dos mundos fantásticos na redescoberta deste tesouro há tanto abandonado. Um tanto quanto escasso em referência direta na quinta edição, a mesa ajudou na "sobrevivência" do cenário numa época de transição criativa editorial. 

A relação com a comunidade online foi um ponto a parte. Algumas decisões, que começaram por questionários no chat da tramissão ao vivo, se tornaram valiosíssimas salvaguardas para os jogadores, tais como inspirações do chat ou votações para o MVP da sessão. Outro ponto interessante foi a consulta tanto a regras quanto a eventos ou recapitulações, com a participação direta do expectador.

E o que dizer dos bordões? "Não é assim que o azar funciona" ou "mão peluda" são alguns dos exemplos. O famoso azar do Gruntar é um caso a ser estudado por matemáticos! A quantidade de falhas críticas (o resultado 1 no dado de 20 lados) é absurdamente assustadora. Houve, entretanto, um episódio de quebra desta sequência que foi épico!

Quanto ao "mão peluda", digamos que o mestre costumava dar uma melhorada nas estatísticas dos monstros e inimigos. Chegou a não considerar algumas regras estabelecidas nos livros ou não aceitar efeitos excessivamente favoráveis aos jogadores, de magias a aprimoramentos. Em algum ponto, este comportamento gerou um embate com os jogadores, porém contornado, propiciando a aceitação e otimização da boa e velha "palavra final" do mestre, ou o Azeverso.

Mas o Azeverso também possibilitou alguns desenvolvimentos interessantes: Baragor e o Clã do Machado, Aeneus e a relação com Wolfgang, Karax e Mnomene, Nima e Nordik, entre outros. Aqui, chamo a atenção para o fato de que AzeCos fomentava o roleplay. "Conta como você fez isso" ou "conta como você matou o fulano" eram falas comuns, ao tentar extrair do jogador a imersão necessária para compor a cena. Procurou até a resolução, em outros pontos, pelo relato da ação ao invés de rolagem de dados, tendo sido constante a possibilidade de negociar vantagens ou desvantagens com os jogadores, em favor da história.

Mais do que uma simples campanha gravada, Rola o Dado tornou-se referência em qualidade narrativa, técnica e envolvimento da comunidade, conquistando fãs e marcando época na cena do RPG nacional.

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